O impacto global de Bad Bunny transcende a música. Confesso que só o conheci melhor e fui cativado por causa da sua performance no intervalo do último Super Bowl – um espetáculo que, independentemente do placar do jogo ou de críticas pontuais, reverberou como uma poderosa celebração cultural. Minha observação, contudo, vai além do entretenimento: identifiquei elementos profundamente ritualísticos que ressoam com a busca por uma “Fraternidade Digital” autêntica. É sobre essas considerações que gostaria de me aprofundar, como parte da minha preocupação com a construção de uma Fraternidade Digital genuína.
A performance de Bad Bunny no Super Bowl foi um testemunho eloquente do valor dos rituais. Em poucos minutos, um cenário complexo foi orquestrado com uma “liturgia” de detalhes – gestos, movimentos, transições – todos meticulosamente pensados para comunicar uma mensagem envolvente. O rito, em sua essência, não apenas atrai e comunica, mas também celebra e enriquece, forjando uma cultura compartilhada e abrindo múltiplas camadas de interpretação. Este poder ritualístico é um tema que exploro em meu livro, “O Pequeno Príncipe encontra o século XXI: um guia de Fraternidade Digital para redescobrir o essencial“, que serve como uma reflexão para o Instituto Casa da Ponte que dirijo.
Bunny realizou ritos que ressoam com a busca por uma “Fraternidade Digital”
Antoine de Saint-Exupéry, em “O Pequeno Príncipe”, ilustra essa verdade atemporal através do diálogo entre o principezinho e a raposa. A raposa ensina que a criação de laços especiais depende da instituição de ritos. Ela pede: “Seria preciso que tu viesses sempre à mesma hora. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei agitado e inquieto: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração…” Esta passagem ressalta a expectativa, a preparação e a intencionalidade que transformam um encontro em um evento significativo.
Vem aí meu novo livro: “O Pequeno Príncipe encontra o século XXI”
Ao observar as reações ao show de Bad Bunny, é notável como os internautas destacaram a narrativa ritualística: a emergência dos canaviais, a passagem por cenários cotidianos, o desfile diante de uma “casinha”, a ascensão a postes e a “queda” nos braços da multidão. Cada elemento, uma alusão a Porto Rico, seu berço, mas que o projetou para o mundo. Foi um rito potente, um roteiro visual que ecoou a sacralidade da liturgia religiosa. Contudo, essa ressonância contrasta dolorosamente com o que, por vezes, observamos nas instituições religiosas, onde a força e o poder de atração do rito parecem ter esmaecido em comparação com a vitalidade demonstrada em eventos de grande escala como o Super Bowl.
Bunny caiu nos braços do mundo
O esfriamento de muitos ritos religiosos, em contraste com a performance de Bad Bunny, pode ser atribuído à ausência dessa “preparação do coração”. A capacidade de transformar um breve momento – como os menos de quinze minutos de show – em um evento saturado de significado e expectativa é o que distingue o extraordinário. O público, de fato, “preparou o coração”, e essa antecipação transformou a apresentação em algo essencial e singular, forjando um laço inquebrável.
Deus abençõe todos os povos da América!
É essa intencionalidade e essa construção coletiva de significado que são cruciais para cultivarmos uma autêntica “Fraternidade Digital”. Ao resgatarmos o valor dos ritos – seja na arte, na fé ou na interação digital – podemos redesenhar espaços onde a conexão genuína e a celebração da humanidade floresçam, nos permitindo redescobrir o essencial em um mundo cada vez mais fragmentado.
Pe. Rafael Vieira, CSsR
Brasília, 11 de fevereiro 2026
Imagem: produzida por IA






