O desafio da IA de Francisco a Leão

Na passagem de bastão entre o Papa Francisco e o Papa Leão, um tema se mostra verdadeiramente crucial, talvez mais do que seja perceptível para quem se ocupa exclusivamente de assuntos eclesiásticos. No coração de um tempo que parece deslizar para uma realidade cada vez mais automatizada, Francisco deixou como tema aberto para seu sucessor a transformação mais radical de nosso imaginário contemporâneo: a inteligência artificial. Nesta transição de pontificado, abre-se um discurso que não diz respeito apenas à tecnologia, mas à própria definição do que significa ser humano em uma era de máquinas pensantes.

Em suas palavras — e já podemos considerar muito indicativas as dos primeiros cem dias do pontificado de Leão — não há nostalgia por um mundo perdido nem demonização do progresso. Há, antes, a tentativa de pensar criticamente o cenário que se abre diante de nós. De olhar para dentro da máquina e perguntar quem está realmente no centro de seu movimento.

O Papa Francisco trouxe para o cerne do debate público global uma reflexão sobre a IA que não fosse meramente técnica nem puramente moralista. Desde o princípio, reconheceu o potencial positivo da inteligência artificial: não se tratava, para ele, de uma simples ameaça, mas também de uma possibilidade. A possibilidade, por exemplo, de reduzir o esforço do trabalho humano, de democratizar o acesso ao conhecimento, de favorecer o encontro entre povos e culturas através de traduções automáticas, análise de dados, redes neurais capazes de processar bilhões de informações por segundo. No final de seu pontificado, apareceu o documento Antiqua et Nova, uma importante Nota sobre a relação entre inteligência artificial e inteligência humana, assinada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé e pelo da Cultura e da Educação.

Francisco esclareceu com insistência um ponto essencial: a IA não é neutra. É uma ferramenta poderosa e, como todo poder, carrega consigo o risco da manipulação, da desigualdade, da violência. Francisco falou de “poluição cognitiva”, expressão que descreve com crueza o efeito de uma comunicação digital cada vez mais governada por lógicas de otimização e cálculo: as fake news, os deepfakes, a manipulação da opinião pública não são acidentes, mas sintomas de uma crise da verdade. A inteligência artificial pode ser a arma perfeita para quem pretende dobrar a realidade a uma narrativa instrumental. E em sua última encíclica, a Dilexit nos, afirmou: “na era da inteligência artificial, não podemos esquecer que para salvar o humano são necessários a poesia e o amor”.

O Papa Leão XIV acolheu esta herança e a relançou desde a escolha de seu nome. O Pontífice recém-eleito, ao encontrar os cardeais que o escolheram, explicou-lhes as razões da escolha do nome: “O Papa Leão XIII, com a histórica Encíclica Rerum Novarum, abordou a questão social no contexto da primeira grande Revolução Industrial. Hoje, a Igreja oferece a todos o seu patrimônio de Doutrina Social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da inteligência artificial, que comportam novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”. Em suas intervenções subsequentes, emerge com clareza a ideia de que a IA nunca poderá substituir o que é especificamente humano: a consciência moral, o discernimento, a relação autêntica com o outro. A máquina pode imitar, mas não compreender; pode processar, mas não julgar; pode aprender, mas não amar. É aqui que se joga a fronteira, cada vez mais tênue, entre simulação e realidade.

A inteligência artificial atingiu um ponto em que pode gerar textos coerentes, pinturas realistas, composições musicais complexas. Pode simular um diálogo, corrigir erros gramaticais, até mesmo produzir comentários literários. O paradoxo é que quanto mais a máquina imita o humano, mais o humano corre o risco de se perder.

O que significa, então, ser pessoas em um mundo onde uma máquina pode escrever um ensaio sobre o amor ou compor uma poesia sobre a ausência?

O Papa Francisco insistiu na necessidade de uma “sabedoria do coração” que não pode ser codificada. Falou da urgência de desenvolver uma ética da inteligência artificial que coloque no centro a dignidade da pessoa humana. Não uma retórica abstrata, mas uma linha de resistência: a pessoa como valor incalculável, insubstituível. E isso significa, entre outras coisas, que a IA deve permanecer a serviço do humano, não substituí-lo. “Nem tudo o que é tecnicamente possível é moralmente aceitável”, escreveu.

O Papa Leão XIV, por sua vez, rejeitou toda sedução transumanista, toda tentação de pensar a tecnologia como prolongamento ilimitado do humano. A máquina, disse, pode ajudar, mas não redimir. Somente o humano pode se abrir às últimas perguntas da existência, somente o humano pode se orientar para o Verdadeiro e o Bom. A verdadeira inteligência não é aquela que analisa dados, mas aquela que escolhe responsavelmente, com consciência. Em uma palavra: aquela que discerne.

No tempo em que os algoritmos decidem quem verá o quê, quem obterá um empréstimo, quem será selecionado para uma entrevista de emprego, a ética não pode mais ser um luxo. O Papa Francisco pediu explicitamente um tratado internacional vinculante que regulasse o uso da inteligência artificial. Não apenas para evitar abusos, mas para estimular a responsabilidade. Pediu que nos debates públicos sejam ouvidas também as vozes dos excluídos: os pobres, os migrantes, as crianças, aqueles que não têm acesso à tecnologia, mas sofrem seus efeitos.

O Papa Leão XIV ecoou este apelo pedindo uma governança multinível da IA, que seja inspirada nos princípios da doutrina social da Igreja, mas traduzível em termos laicos e compartilháveis. Nesse sentido, o Papa remete ao conceito de tranquillitas ordinis, a tranquilidade da ordem proposta por Santo Agostinho em De Civitate Dei. De fato, não basta regular a IA: é preciso regular também suas finalidades. A máquina não pode ser deixada sozinha para ditar a agenda.

Ambos os pontífices veem o perigo não apenas na tecnologia, mas na visão de mundo que ela encarna: uma visão que arrisca reduzir a complexidade do humano a um problema de eficiência. Para o Papa Leão XIV, a máquina não deve apenas funcionar, deve contribuir para uma ordem mais humana das relações sociais. O objetivo da IA não deve ser apenas a performance, mas a justiça. Não apenas a eficiência, mas a comunhão. Em um tempo que sonha em “aumentar” o humano através da tecnologia, o risco é de nos encontrarmos com uma humanidade diminuída, empobrecida de sua capacidade de julgamento, relação, maravilha. Daí a urgência, compartilhada por ambos os Pontífices, de uma educação para o pensamento crítico, para a responsabilidade, para o cuidado. No fundo, a verdadeira questão não é o que a inteligência artificial pode fazer, mas o que queremos fazer nós com ela. E sobretudo: quem queremos ser.

No célebre conto Hako Otoko, ou seja, O Homem-Caixa, em 1967, o escritor japonês Kōbō Abe imagina um futuro em que os homens, para evitar a dor, se fazem substituir por simulacros artificiais. Ou melhor, escolhem se trancar voluntariamente em uma caixa, tornando-se eles próprios seres-simulacro. O homem-caixa é, em certo sentido, um proto-avatar: um corpo que não se comunica diretamente, mas filtra a realidade. Toda vez que a vida dói demais, o avatar toma o seu lugar. Mas no final, ninguém mais se lembrava de quem era o original. Os fantasmas haviam entrado na máquina.

Talvez hoje estejamos nessa encruzilhada. E talvez por isso a voz de dois Pontífices, de dois mestres de humanidade, ressoe com força em uma época que se ilude de poder se salvar através do código. A IA está aqui para ficar. Mas nós, humanos, estamos aqui para interagir com nossas perguntas, nossos erros, nossa liberdade. Em um tempo em que no Oriente Médio um exército bombardeia a população fazendo escolher os objetivos por uma inteligência artificial à qual deu o nome de Gospel (“Evangelho”), percebemos que temos cada vez mais necessidade do que nenhuma máquina poderá jamais aprender, embora bem instruída pelos códigos: a compaixão.

Antonio Spadaro, no jornal do Vaticano, “L’Osservatore Romano”

Edição 25 de agosto de 2025

Imagem: feita por IA

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