Uma pessoa pública aparece em um vídeo fazendo uma declaração polêmica. Um áudio atribuído a uma autoridade circula em grupos de mensagens. Uma fotografia mostra um artista em uma situação que parece real. Em poucos minutos, o conteúdo pode chegar a milhares de pessoas.
Com o avanço das ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa, produzir ou alterar textos, imagens, áudios e vídeos ficou mais acessível. Entre essas possibilidades estão os chamados deepfakes, conteúdos audiovisuais criados ou manipulados para parecer que uma pessoa real disse ou fez algo que não aconteceu.
A tecnologia possui aplicações legítimas em áreas como publicidade, entretenimento, educação e produção audiovisual. O problema ocorre quando um conteúdo produzido ou alterado por IA é apresentado como um registro verdadeiro ou utilizado para atribuir a alguém uma fala, ação ou situação que não aconteceu.
O fenômeno já faz parte da rotina de quem utiliza a internet. Segundo o Painel TIC 2025 — Integridade da Informação, do Cetic.br|NIC.br, 41% dos usuários de internet com 16 anos ou mais afirmaram ter contato diário com deepfakes. A pesquisa foi realizada entre agosto e setembro de 2025.
Quando uma imagem pode enganar
Durante muito tempo, fotografias e vídeos foram associados a registros de acontecimentos reais. As ferramentas de inteligência artificial mudaram essa relação.
Atualmente, uma imagem pode ser criada a partir de uma descrição, uma fotografia pode ser modificada e um vídeo pode receber um rosto ou uma voz que não estavam presentes na gravação original.
Por isso, verificar apenas se uma imagem “parece real” não é suficiente.
Pessoas públicas também podem ter suas imagens e vozes utilizadas em conteúdos manipulados. Um dos formatos é a simulação de uma declaração: a pessoa aparece falando diante da câmera, mas o áudio ou a própria imagem podem ter sido alterados.
Também existem casos em que uma fotografia verdadeira é retirada de seu contexto e utilizada para acompanhar uma informação falsa. Nesse cenário, a imagem não necessariamente foi criada por inteligência artificial. A desinformação pode estar na maneira como ela é apresentada.
A desinformação também pode estar no texto
O problema não se limita a imagens, vídeos e áudios.
Ferramentas de IA generativa também podem produzir textos com informações incorretas, citações inexistentes, números sem fonte ou acontecimentos que nunca ocorreram.
A UNESCO alerta para as chamadas “alucinações” de sistemas de inteligência artificial, quando uma ferramenta apresenta informações inventadas com aparência de coerência e segurança. Por isso, textos produzidos por IA também precisam ser verificados antes de serem tratados como informação factual.
Uma informação pode estar bem escrita e ainda assim estar errada.
Como verificar uma informação
Não existe um único sinal visual capaz de identificar todos os conteúdos produzidos ou manipulados por inteligência artificial. A verificação deve considerar a origem e o contexto da informação.
Algumas perguntas podem ajudar:
Quem publicou?
Confira o perfil, site ou página responsável pelo conteúdo. Observe se existe identificação clara de quem publicou e se aquela conta costuma divulgar informações verificáveis.
Qual é a fonte original?
Se uma publicação afirma que determinada pessoa deu uma declaração ou que um acontecimento ocorreu, procure a origem da informação. Uma postagem sem indicação de fonte merece uma segunda verificação.
Outros veículos confirmaram?
Procure o acontecimento em veículos jornalísticos confiáveis, sites oficiais ou canais institucionais relacionados ao assunto.
A ausência de outras fontes não prova, sozinha, que uma informação seja falsa. É, porém, um motivo para evitar o compartilhamento imediato.
A imagem ou o vídeo está no contexto correto?
Observe a data, o local e a legenda. Uma fotografia verdadeira pode ser utilizada para ilustrar um acontecimento diferente daquele em que foi originalmente registrada.
Também é possível utilizar ferramentas de busca reversa de imagem para descobrir onde aquela fotografia apareceu anteriormente e comparar os contextos.
O conteúdo provoca uma reação imediata?
Informações que despertam surpresa, indignação, medo ou euforia podem ser compartilhadas rapidamente, antes de uma verificação.
Fazer uma pausa antes de compartilhar é uma medida simples para diminuir a circulação de informações falsas.
Não confie apenas nos erros visuais
Mãos deformadas, textos ilegíveis, sombras inconsistentes e outros problemas já foram sinais comuns em imagens produzidas por inteligência artificial. Esses indícios ainda podem aparecer, mas não devem ser utilizados como único método de identificação.
As ferramentas evoluem e conseguem produzir conteúdos cada vez mais convincentes. A verificação deve começar pela origem e pelo contexto da informação, e não apenas pela aparência.
Também é importante ter cautela com ferramentas que prometem identificar automaticamente se uma imagem foi produzida por IA. Um resultado automatizado não substitui a checagem da fonte.
O que fazer diante de uma informação suspeita?
A primeira atitude é não compartilhar enquanto o conteúdo não for verificado.
Se a publicação estiver relacionada a uma pessoa pública, procure os canais oficiais dessa pessoa e fontes jornalísticas confiáveis. Se envolver uma instituição, empresa ou órgão público, consulte os canais oficiais.
Serviços de checagem de fatos também podem ajudar na verificação.
Quando uma informação falsa já foi compartilhada, uma correção clara pode contribuir para interromper sua circulação. Informar às pessoas que receberam o conteúdo que a informação estava incorreta ajuda a evitar novos compartilhamentos.
Educação midiática ajuda a lidar com a IA
O crescimento dos conteúdos sintéticos aumenta a importância da educação midiática, que envolve desenvolver habilidades para acessar, compreender, avaliar e produzir informações.
O Painel TIC 2025 identificou relação entre práticas de verificação e maior capacidade de identificar conteúdos verdadeiros e falsos na internet. A pesquisa também mostrou que falta de tempo, falta de interesse e a percepção de que já é possível saber se uma informação é verdadeira ou falsa estão entre os motivos citados para não realizar a checagem.
A UNESCO também trabalha a alfabetização midiática e informacional como ferramenta para lidar com desinformação, manipulação de conteúdos e circulação de informações enganosas.
A inteligência artificial continuará presente em ferramentas de busca, redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de produção de conteúdo. Desenvolver habilidades para compreender seus usos e limitações faz parte da formação necessária para utilizar a internet de maneira responsável.
Formação aborda os perigos da IA em ano eleitoral
Para ampliar o debate sobre o uso responsável da inteligência artificial, o Instituto Casa da Ponte promove formações de letramento digital com o professor Danilo Ferreira, especialista em Letramento Digital. Com o tema “Já IA acreditando — Os perigos da IA em ano eleitoral”, os encontros vão abordar os cuidados necessários para identificar conteúdos manipulados, reconhecer possíveis desinformações e utilizar a inteligência artificial de forma mais consciente.
Confira a agenda:
- 23 de setembro, às 19h30 — Paróquia Nossa Senhora das Graças, 908 Norte;
- 24 de setembro, às 19h30 — Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Lago Sul;
- 25 de setembro, às 19h30 — Santuário Santíssimo Sacramento, 606 Sul.
A iniciativa integra as ações do Instituto Casa da Ponte voltadas à educação e ao letramento digital, contribuindo para que mais pessoas desenvolvam ferramentas para avaliar informações que circulam na internet e tomar decisões com maior segurança no ambiente digital.






