Empreender pode ser uma alternativa para mulheres que buscam gerar renda e conquistar independência financeira. No Brasil, o número de mulheres à frente de negócios chegou a 10,4 milhões em dezembro de 2025, o maior patamar da série histórica, segundo levantamento do Sebrae com base na PNAD Contínua, do IBGE. O número representa um crescimento de 27% em dez anos.
O avanço, porém, não significa que homens e mulheres tenham as mesmas condições para empreender. Diferenças de renda, dificuldade de acesso ao crédito, menor disponibilidade de tempo e desigualdade no acesso à tecnologia ainda fazem parte da realidade de muitas empreendedoras.
Para mulheres em situação de vulnerabilidade social, esses obstáculos podem se somar a outros fatores, como baixa renda familiar, falta de equipamentos adequados e dificuldade de acesso a cursos e redes de apoio.
Mulheres ainda ganham menos
A desigualdade de renda aparece também entre as pessoas que estão no mercado de trabalho. Dados do IBGE mostram que, em 2024, o rendimento médio habitual das mulheres ocupadas foi de R$ 2.778, enquanto o dos homens chegou a R$ 3.533. O rendimento feminino correspondia, portanto, a 78,6% do masculino.
No empreendedorismo, a diferença também aparece. Segundo o Sebrae, o crescimento do número de mulheres donas de negócios ocorreu ao mesmo tempo em que persistem diferenças nas condições de trabalho e renda entre homens e mulheres.
A questão financeira é especialmente relevante para quem utiliza o empreendedorismo como fonte principal de sustento. Sem capital para investir, comprar equipamentos, divulgar produtos ou ampliar a produção, pequenos negócios podem ter dificuldade para crescer.
Crédito ainda é um desafio
O acesso a financiamento está entre os principais obstáculos identificados pelas políticas públicas voltadas ao empreendedorismo feminino.
A Estratégia Nacional de Empreendedorismo Feminino — Elas Empreendem, coordenada pelo Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte — trabalha com quatro eixos: acesso ao mercado e inclusão socioprodutiva, tecnologia e inovação, crédito e educação empreendedora.
O próprio governo federal reconhece que mulheres empreendedoras enfrentam dificuldades maiores para acessar mercados, crédito, tecnologia, inovação e oportunidades de qualificação.
Entre as iniciativas disponíveis estão linhas de crédito e microcrédito específicas para mulheres e mecanismos de garantia para pequenos negócios que não possuem recursos suficientes para oferecer como garantia em um financiamento.
Conciliar trabalho e cuidados também pesa
Outro fator que interfere no empreendedorismo feminino é a divisão desigual das tarefas domésticas e dos cuidados com crianças, idosos e outros familiares.
Na prática, para muitas mulheres, empreender não significa apenas administrar um negócio. A atividade precisa ser conciliada com outras responsabilidades que continuam concentradas sobre elas.
Essa realidade afeta o tempo disponível para estudar, planejar, divulgar produtos, atender clientes e buscar novas oportunidades.
O resultado é que a capacidade de crescimento de um negócio pode depender não apenas da habilidade empreendedora, mas também das condições sociais e econômicas em que essa mulher está inserida.
Empreendedorismo digital abre novas possibilidades
A internet transformou a forma como pequenos negócios podem encontrar clientes. Redes sociais, aplicativos de mensagens, plataformas de vendas e ferramentas de pagamento permitem que uma empreendedora divulgue produtos e serviços sem necessariamente manter uma loja física.
Mas o acesso à tecnologia ainda é desigual.
De acordo com a TIC Domicílios 2024, pesquisa realizada pelo Cetic.br, 83% dos domicílios brasileiros tinham acesso à internet. Entre os domicílios das classes DE, entretanto, 32% não tinham nem computador nem acesso à internet.
A diferença também aparece quando se observa a presença de computadores. Enquanto 97% dos domicílios da classe A tinham computador, o percentual era de apenas 11% entre os domicílios das classes DE.
Isso ajuda a explicar por que inclusão digital e empreendedorismo digital precisam caminhar juntos.
Ter acesso a um celular ou à internet é apenas uma parte do processo. É necessário saber utilizar essas ferramentas para transformar uma ideia ou habilidade em uma atividade econômica.
Capacitação pode ajudar a reduzir barreiras
Aprender a utilizar redes sociais para negócios, ferramentas de inteligência artificial, plataformas de vendas e recursos de educação financeira pode ampliar as possibilidades para quem está começando.
Essa é também uma das diretrizes da política nacional para o empreendedorismo feminino. A Estratégia Elas Empreendem inclui a educação empreendedora e o acesso à tecnologia e à inovação entre seus eixos estruturantes.
A formação, nesse contexto, não substitui políticas de crédito, acesso a mercados ou melhoria da renda. Mas pode ajudar a transformar conhecimentos e habilidades em oportunidades de trabalho e geração de renda.
Conectando Futuros leva empreendedorismo digital a mulheres
É nesse cenário que iniciativas da sociedade civil buscam aproximar formação profissional e tecnologia de pessoas em situação de vulnerabilidade.
O Instituto Casa da Ponte, por meio do Conectando Futuros, oferece formações voltadas ao empreendedorismo digital, com conteúdos relacionados a marketing digital, vendas online, inteligência artificial, redes sociais, educação financeira e formalização de negócios.
Uma das ações do projeto foi realizada em São Sebastião, no Distrito Federal, com uma formação voltada para mulheres e o uso do celular como ferramenta para divulgação, vendas e organização dos negócios.
Em outra turma, 65 mulheres concluíram a formação, que reuniu conteúdos sobre planejamento, organização, precificação, educação financeira, redes sociais, inteligência artificial e estratégias de vendas.
A proposta do Conectando Futuros é contribuir para que mulheres tenham acesso a conhecimentos e ferramentas que possam ser utilizados na criação ou no fortalecimento de atividades profissionais.
Em um cenário no qual milhões de brasileiras já empreendem, ampliar o acesso à capacitação, tecnologia, educação financeira, crédito e redes de apoio é parte do desafio de transformar o empreendedorismo em uma possibilidade concreta de geração de renda e independência financeira.
Mais do que abrir um negócio, para mulheres em situação de vulnerabilidade, empreender pode envolver a construção de condições para ter maior autonomia sobre o próprio trabalho, a renda e as decisões sobre o futuro.
Serviço
Conectando Futuros — Instituto Casa da Ponte
O projeto promove formações em empreendedorismo digital e novas tecnologias para pessoas em situação de vulnerabilidade, com ações voltadas à qualificação profissional, geração de renda e inclusão digital. Neste domingo, 20, as alunas do Conectando Futuros estarão reunidas para colocar em prática todo o conhecimento adquirido durante a formação e você pode participar: a Feira das Alunas começa às 7h da manhã, na Comunidade Rosa Mística, Associação Padre Júlio Negrizzolo, BR-251, km 37.
Fontes: Sebrae/PNAD Contínua; IBGE; Cetic.br/TIC Domicílios; Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte.






