O acesso à internet entre pessoas idosas cresceu de forma acelerada no Brasil, mas dados oficiais mostram que conectividade não equivale a letramento digital nem a inclusão social
A tecnologia ocupa um espaço cada vez maior na rotina das famílias brasileiras. Celulares, aplicativos de mensagens, redes sociais e plataformas de vídeo fazem parte das relações familiares e sociais, e a população idosa acompanha essa mudança: mais pessoas com 60 anos ou mais estão conectadas à internet a cada ano.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 74,5% das pessoas com 60 anos ou mais utilizaram a internet em 2025 — um avanço de 4,4 pontos percentuais em relação a 2024, o maior crescimento entre as faixas etárias pesquisadas naquele ano. Em 2019, o percentual era de 44,8%; em 2021, chegou a 57,5%.
O crescimento no número de usuários levanta uma pergunta: estar conectado significa estar incluído?
Acesso não é o mesmo que letramento digital
O aumento de usuários não elimina as diferenças na capacidade de utilizar a internet com segurança e senso crítico.
A pesquisa TIC Domicílios, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), mostra que essa habilidade varia conforme escolaridade e idade. Em 2024, 80% dos usuários com ensino superior disseram verificar a veracidade de informações encontradas na internet, contra 31% entre os que têm apenas ensino fundamental. Na média geral, a prática foi relatada por 52% dos usuários.
Outro levantamento do Cetic.br, sobre conectividade significativa, aponta uma vulnerabilidade específica da população idosa: em 2023, 61% das pessoas com 60 anos ou mais tinham baixos níveis de conectividade significativa, ante uma média nacional de 33%. O indicador considera, além do acesso, fatores como qualidade da conexão, tipo de dispositivo e capacidade de uso.
Saber abrir um aplicativo ou assistir a um vídeo é apenas parte do processo de inclusão digital. Também é preciso saber verificar uma informação, reconhecer uma tentativa de golpe, proteger dados pessoais e identificar conteúdo manipulado antes de compartilhá-lo.
Quando a tela ocupa o espaço da convivência
A vida digital também altera a convivência dentro de casa. É comum encontrar famílias reunidas fisicamente, mas concentradas em telas diferentes: enquanto filhos e netos acompanham redes sociais ou mensagens, o idoso pode ficar à margem das conversas ou recorrer ao próprio celular como principal fonte de entretenimento e contato social. A situação tende a se agravar quando a pessoa idosa mora sozinha ou tem uma rede de convívio presencial reduzida.
O Ministério da Saúde reconhece que a solidão e o isolamento social podem prejudicar a saúde das pessoas idosas. Entre as recomendações do órgão para a saúde mental estão a participação em atividades sociais, o contato com pessoas de diferentes idades, a manutenção de amizades e o uso de chamadas de voz ou vídeo para manter contato com familiares.
A tecnologia ajuda a reduzir o isolamento quando facilita esse contato. O problema surge quando a comunicação digital substitui a convivência presencial, ou quando o uso das plataformas acontece sem orientação.
Desinformação também é uma questão de inclusão digital
A entrada da população idosa no ambiente digital trouxe outro desafio: a exposição a conteúdos falsos ou enganosos. Grupos de WhatsApp, redes sociais e plataformas de vídeo permitem que informações — verdadeiras ou não — circulem rapidamente entre pessoas que confiam umas nas outras, o que facilita o compartilhamento sem verificação prévia.
A desinformação atinge pessoas de diferentes idades e níveis de escolaridade, e por isso não deve ser associada automaticamente à velhice. O problema está ligado à falta de habilidades para lidar com o volume e a velocidade de informação do ambiente digital atual.
Quem recebe uma mensagem em um grupo de família precisa conseguir verificar a origem do conteúdo, checar a data da publicação, buscar outras fontes e avaliar se a informação foi confirmada por veículos ou instituições confiáveis. Essa capacidade é parte do letramento digital e do letramento midiático.
Solidão pode aumentar a vulnerabilidade
Quando o ambiente digital se torna a principal fonte de informação, entretenimento e interação de uma pessoa, os grupos virtuais passam a ocupar um espaço maior em sua rotina. Isso pode ser positivo, quando promove amizade e troca de conhecimento — ou pode reforçar o isolamento, quando a pessoa passa a conviver majoritariamente com conteúdos e opiniões semelhantes aos seus.
Em ambientes digitais polarizados, conteúdos políticos, religiosos ou conspiratórios costumam ser apresentados de forma repetitiva e emocional, o que dificulta o contato com informações diferentes. Por isso, o combate à desinformação entre idosos deve ser tratado como uma questão de educação e autonomia — e não apenas como uma tentativa de barrar determinados conteúdos. Ensinar a verificar uma informação tende a ser mais eficaz do que apenas classificar uma notícia como falsa.
Golpes digitais ampliam os riscos
A segurança é outro ponto de atenção. O crescimento do uso de serviços bancários, compras on-line e aplicativos de atendimento amplia a autonomia das pessoas idosas, mas também cria novas oportunidades para golpes.
O letramento digital precisa incluir orientações sobre senhas, autenticação em duas etapas, links suspeitos, mensagens fraudulentas, falsos atendentes, clonagem de contas e pedidos de transferência de dinheiro. Em 2024, 88,9% dos brasileiros com 10 anos ou mais tinham telefone celular para uso pessoal, segundo o IBGE — um indicador de que, quanto mais atividades cotidianas migram para o ambiente digital, maior é a necessidade de preparar as pessoas para usá-lo com segurança.
O papel do letramento digital
O desafio não termina quando uma pessoa idosa aprende a usar um smartphone. É preciso que ela compreenda as ferramentas, utilize serviços digitais, mantenha contato com a família, acesse informação e saiba identificar riscos.
Essa é a proposta do projeto de Letramento Digital do Instituto Casa da Ponte, que oferece formação presencial e remota para idosos, com conteúdos sobre combate à desinformação, segurança digital e reconexão com familiares.
O Instituto também mantém o projeto Neto de Aluguel, que aproxima idosos e voluntários mais jovens. A proposta combina apoio tecnológico e convivência intergeracional: os voluntários ajudam com dúvidas sobre aplicativos e videochamadas, além de oferecer companhia. A iniciativa responde a uma necessidade prática — muitas pessoas idosas precisam de ajuda com pequenas dificuldades tecnológicas, mas nem sempre encontram alguém disponível para explicar o processo com paciência.
Como as famílias podem ajudar
A inclusão digital também depende da participação das famílias. Algumas atitudes podem contribuir para a autonomia da pessoa idosa:
- ensinar o funcionamento dos aplicativos em vez de executar as tarefas por ela;
- estimular a verificação de informações antes do compartilhamento;
- explicar como reconhecer mensagens suspeitas e possíveis golpes;
- incentivar chamadas de vídeo para manter contato com familiares;
- reservar momentos de convivência sem celulares;
- apresentar diferentes fontes de informação;
- respeitar o tempo de aprendizagem de cada pessoa;
- incentivar atividades presenciais, culturais e comunitárias.
O objetivo é que a tecnologia seja incorporada à rotina sem substituir outras formas de relacionamento.
Inclusão digital também é inclusão social
O envelhecimento da população brasileira torna esse debate cada vez mais relevante. Segundo o IBGE, o número de pessoas com 60 anos ou mais passou de 22 milhões em 2012 para 34,1 milhões em 2024 — crescimento de 53,3% em pouco mais de uma década.
Ao mesmo tempo, serviços públicos, bancos, comunicação, compras e saúde estão cada vez mais disponíveis por meios digitais. Nesse cenário, saber usar a tecnologia deixou de ser uma habilidade complementar: para muitas pessoas, é uma condição para participar da vida social.
Por isso, programas de letramento digital para idosos precisam considerar três dimensões: autonomia, segurança e convivência. O Instituto Casa da Ponte segue essa perspectiva ao combinar formação tecnológica, combate à desinformação e iniciativas de aproximação entre gerações, com o objetivo de ampliar a autonomia dos idosos e usar a tecnologia para fortalecer relações sociais.
A inclusão digital da população idosa tende a se tornar cada vez mais necessária à medida que serviços e relações migram para o ambiente on-line. Ensinar o uso da tecnologia, desenvolver capacidade crítica e preservar espaços de convivência são partes de um mesmo desafio: garantir que o envelhecimento aconteça com participação social, autonomia e segurança.
Fontes
- IBGE — Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), dados sobre uso da internet e posse de celular por faixa etária.
- IBGE — estimativas sobre a população de 60 anos ou mais (2012–2024).
- Cetic.br — Pesquisa TIC Domicílios (verificação de veracidade de informações por escolaridade).
- Cetic.br — levantamento sobre conectividade significativa (2023).
- Ministério da Saúde — recomendações sobre solidão, isolamento social e saúde mental na terceira idade.
- Instituto Casa da Ponte — projetos Letramento Digital e Neto de Aluguel.






